Atualizado 20/03/2018

Colombiano formado em Harvard ganha bolsa para ficar um ano na Amazônia e levar 'justiça social'

Daniel Alejandro Martínez García, de 23 anos, estudou ciências sociais e filosofia nos Estados Unidos; em São Paulo está aprendendo o português.

Daniel Martínez, de 23 anos, é colombiano, mas está morando em SP; em outubro ele parte para a Amazônia (Foto: Celso Tavares/ G1)
Daniel Martínez, de 23 anos, é colombiano, mas está morando em SP; em outubro ele parte para a Amazônia (Foto: Celso Tavares/ G1)

A dor de ter perdido um irmão que desapareceu aos 14 anos fez o colombiano Daniel Alejandro Martínez García, de 23, crescer com a justiça como lema de vida. Transformou a revolta em entusiasmo para chegar à Universidade Harvard, nos Estados Unidos, uma das mais prestigiadas do mundo.

Se formou em ciências sociais e filosofia no ano passado, e agora, em São Paulo, contemplado por um programa da instituição americana, se prepara para passar um ano na Amazônia. Quer entender os problemas locais ligados às questões ecológicas, econômicas e de narcotráfico e propor soluções que levem justiça social às comunidades.

Daniel nasceu dois anos depois do desaparecimento do irmão. Foram incontáveis as vezes que viu a mãe chorar olhando fotografias do filho que nunca reapareceu. Na comunidade da zona rural onde nasceu, próxima de Medellin, Daniel diz que todo mundo tem uma “história forte com a guerrilha e os paramilitares.”

Aos 13 anos, os pais se separaram e se ele se mudou para Boston, nos Estados Unidos, com o pai, sem saber falar inglês. Aprendeu por conta própria com ajuda de uma irmã. O suficiente para ser aprovado em uma prova que lhe garantiu vaga em uma boa escola pública americana.

Foi lá, na escola chamada John O´Bryant, forte no ensino de matemática e ciências, que vislumbrou novos horizontes com aulas extracurriculares. Se envolveu em projetos de robótica, artes e integrou a ONG Global Potential, que propõe ações de impacto social e desenvolvimento de liderança em diversos países.

Em uma parceria com esta ONG, Daniel passou temporadas fazendo voluntariado em países como Nicarágua, Haiti e República Dominicana. Descobriu aí novas paixões.

 

“Já tinha uma relação com tema justiça, mas até então pensava em estudar química, física ou matemática. Na Nicarágua, por exemplo, vi que eles tinham muitos problemas com a violência, como a Colômbia. Encontrei um amor pela América Latina e a minha missão com a justiça foi politizada”, diz.

 

 

Daniel Martínez se formou em ciências políticas e filosofia em Harvard no ano passado (Foto: Arquivo pessoal)

Daniel Martínez se formou em ciências políticas e filosofia em Harvard no ano passado (Foto: Arquivo pessoal)

 

Harvard

 

Nos Estados Unidos, Daniel morava a 10 minutos do campus de Harvard. Mas só descobriu a existência da universidade um ano antes de aplicar para uma vaga. “As comunidades são muito segregadas”, explica.

Das 11 universidades para as quais aplicou, Daniel foi aceito em 10. Optou por Harvard e ganhou bolsa integral, que cobriu despesas de mensalidade, hospedagem e alimentação. “Eles são muito generosos se você não tem dinheiro.”

No segundo ano da graduação, em 2015, Daniel adoeceu. Pegou um vírus que atingiu o coração provavelmente em uma viagem de motocicleta pela Bolívia. Teve um derrame. Teve sequelas. Precisou reaprender a falar e mal tinha equilíbrio para andar.

“Se eu ganhei na loteria da má sorte, o lado bom é que me recuperei bem rápido, em seis meses.”

 

Projeto social

 

Recuperado, Daniel passou seis meses estudando na Universidade de Havana, em Cuba, em uma parceria com Harvard. Foi nesta época também que colocou de pé com ajuda de um primo um projeto social batizado de “Soy de Aquí” (Sou daqui) nas favelas colombianas.

O projeto atende 150 crianças no contraturno escolar com atividades de esporte, artes e educação.

“Depois de sentir minha fragilidade como mortal, queria fazer algo para ajudar a combater a desigualdade na Colômbia, fazendo as crianças sentirem orgulho do lugar onde moravam.”

 

Brasil

 

Não é a primeira vez de Daniel no Brasil. Como a namorada é brasileira, ele já esteve uma vez no país, por isso também entende e fala bem a língua portuguesa. Ainda troca algumas palavras. “Estou de camiseta vermelha”, disse, para facilitar o encontro com a reportagem no dia da entrevista. Não era vermelha, era roxa. “Eu ainda me confundo com as colores”, justificou, rindo, em portunhol.

 

“Minhas irmãs não conseguiram ir para a minha formatura em Harvard porque não conseguiram visto. Somos de origem pobre. Minha mãe só foi quando eu fiquei doente porque conseguiu visto humanitário. Minha experiência com a imigração é negativa. Para mim, o Brasil é mais aberto, há uma irmandade latino-americana.”

 

Para viajar à Amazônia, o colombiano ganhou a bolsa “Michael C. Rockefeller Fellowship”, de Harvard, conhecida por ser muito disputada. A ida só será em outubro. Até lá, fica em São Paulo para afiar o português e fazer contatos com organizações que atuem na Amazônia.

Depois, pretende continuar estudando, cogita um mestrado na Inglaterra, mas já sabe que não vai abandonar as paixões latino-americanas.

 

Daniel nasceu na Colômbia, fez graduação nos Estados Unidos e agora está no Brasil (Foto: Celso Tavares/ G1)

Daniel nasceu na Colômbia, fez graduação nos Estados Unidos e agora está no Brasil (Foto: Celso Tavares/ G1)

Daniel fez graduação em Harvard com bolsa integral que cobre despesas de hospedagem, alimentação, além das mensalidades (Foto: Arquivo pessoal)

Daniel fez graduação em Harvard com bolsa integral que cobre despesas de hospedagem, alimentação, além das mensalidades (Foto: Arquivo pessoal)

Daniel fez graduação em Harvard com bolsa integral que cobre despesas de hospedagem, alimentação, além das mensalidades (Foto: Arquivo pessoal)

Fonte: G1
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